1 de junho de 2020

Tensão política, vala e comida na corda afastam cidades gêmeas durante pandemia

Na ponte sobre o Rio Apa, em Bela Vista, só sacola com comida passa para o lado paraguaio (Foto: Direto das Ruas)

Na ponte que liga a brasileira Bela Vista com a paraguaia Bella Vista Norte, uma sacola de compras com comida atravessa a fronteira amarrada na corda. A bolsa é higienizada pela polícia do país vizinho antes de passar às mãos do dono da encomenda. O trânsito livre de pessoas entre as cidades gêmeas, comum em dias normais, está proibido há um mês, medida tomada como enfrentamento à pandemia de novo coronavírus.

Na linha internacional que divide Ponta Porã de Pedro Juan Caballero, o vai e vem costumeiro da região marcada pelo turismo de compras deu lugar à arame farpado e valetas. As barreiras foram impostas na tentativa de frear o fluxo de pessoas entre os dois municípios.

O fechamento da fronteira do Brasil com o Paraguai dura, pelo menos até o próximo domingo (26), conforme determinou ontem (21) o ministério do Interior do país vizinho. Apenas situações pontuais de razões humanitárias ou vulnerabilidades se salvam da regra. A Direção Geral de Migrações implantou 13 postos de controle em fronteiras e aeroportos.

Além de Bela Vista e Ponta Porã, outros cinco municípios sul-mato-grossenses estão na divisa do Brasil com o Paraguai – Coronel Sapucaia, na linha de fronteira com Capitan Badó; Mundo Novo, que faz fronteira com Salto del Guairá; Paranhos, localizada ao lado de Ypejhú; Porto Murtinho, vizinha de Carmelo Peralta; e Sete Quedas, ladeada por Pindoty Porá.

Segundo relato do prefeito de Ponta Porã, Hélio Peluffo (PSDB), tensão política marca as tomadas de decisões em Pedro Juan Caballero, uma vez que a administração municipal e do departamento de Amambay fazem oposição ao governo do presidente Mario Abdo Benítez. –

“A gente fez uma sugestão. Se quiserem abrir a fronteira, somos favoráveis, desde que seja uma abertura controlada, com barreira sanitária. Eles [gestores de Pedro Juan Caballero e departamento de Amambay] querem, mas não sabem se o governo federal quer. Tem briga interna, briga política no meio, e nós não vamos nos meter”, declarou.

Do lado paraguaio, as atividades comerciais foram interrompidas. Em solo brasileiro, Ponta Porã propôs retorno gradual do comércio.

Com apenas um caso local confirmado – outros três são “importados” do Paraguai -, Peluffo diz não ver motivos para endurecer as restrições à circulação de pessoas. Pedro Juan Caballero já soma 8 casos de covid-19, segundo o ministério da Saúde do país.

Relação nada amistosa – Empresária de Bela Vista e seu marido, com negócios no Paraguai, estão impedidos de ir até a fazenda ou a loja veterinária em Bella Vista Norte. Ela reclama de suposta diferença de tratamento dos policiais paraguaios na barreira da ponte sobre o Rio Apa.

“Fui levar comida para minha secretária, que está passando fome lá, mas tratam a gente como se fosse bicho, pedindo para não se aproximar. O brasileiro não quer ir levar coronavírus para o Paraguai. A gente quer trabalhar. Assim como o paraguaio que trabalha no Brasil”, diz a empresária, que tem 36 anos e prefere não se identificar.

Ela narra que, sem abastecimento por parte dos fornecedores brasileiros, os mercados paraguaios entraram em colapso, o que fez o posto de controle passar a permitir a passagem de alimento para o outro lado da ponte, como a cena descrita na abertura deste texto.

A reportagem tentou contato com o prefeito de Bela Vista, Reinaldo Benites “Piti” (PSDB), que não atendeu ou retornou as ligações.

As administrações de Sete Quedas e Coronel Sapucaia também foram procuradas para repercutir o assunto, mas os prefeitos não foram encontrados.

Dados – O ministério da Saúde brasileiro confirma, até ontem (21), 43.079 casos de novo coronavírus e 2.741 mortes em decorrência da doença.

A pasta paraguaia conta 213 casos de covid-19 e nove óbitos até agora.

Fonte: Campo Grande News

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *