31 de outubro de 2020

De volta à cidade natal!

J. Paulo Villalba

Bela Vista, na época MT, hoje MS!

Após alguns anos, volto à fronteiriça Bela Vista, com Bella Vista Norte, Paraguai. Minha cidade Natal.

Madrugadinha, ainda escuro, inicia a viagem!

Saindo de Campo Grande – BR – 060, vou cortando estrada, e recordando, daqueles anos, que já se foram…: “Os anos 60”.

Na época, rodovia sem asfalto. Primeiro trecho Campo Grande, Sidrolândia. Quantas atoladas, naquele barro vermelho, aconteceram e presenciei.

Ônibus, automóveis pequenos, em tempos de chuvarada, atolavam mesmo. Era comum ver uma fila de carros, afundados, patinando no barro.

Passageiros, descendo, um ajudando o outro, “palpitando”, sobre a melhor forma de tirar o carro, daquela lama interminável. Quando estava com muita dificuldade, surgia um trator ou uma junta de bois, para desatolar os veículos. E os motoristas e passageiros, descalços, embarrados da cabeça aos pés.

De Sidrolândia a Nioaque, tinha um atoleiro famoso, que em época de chuvarada, atolava mesmo.

Aventura… E boiada…

De Nioaque a Jardim era mais tranquilo. De Jardim a Bela Vista, passando pelo povoado de Boquerón, se atolava muito também.  Essa viagem, em tempo de chuvarada era uma aventura!

Com o tempo normal, o ônibus saia de madrugada de Bela Vista, para Campo Grande ou vice-versa, e só chegava início da noite (no mínimo 12 horas de viagem). Mas com chuva, eram muitas horas a mais.

Hoje essa viagem, de automóvel, se faz no Maximo em 04 horas.

Naqueles anos 60, nessa rodovia, não se via como hoje, as grandes plantações de Soja e Cana de Açúcar. Eram os cerrados mato-grossenses, pasto, alguns milharais e gado.

Nas estradas, viam-se muitos Animais e Aves (Lobos- Guará, Lobinhos, Caititu, Veados, Tatus, Quatis, Seriemas, Avestruz, Jacutinga, Mutum e vez ou outra uma Onça Parda, e muito mais…).

Além da fauna, topávamos também, com grandes boiadas, que na época era conduzida em marcha constante. E geralmente quando passávamos, no meio da boiada, ouvíamos o saudoso berrante, hoje em nossas lembranças!

Aproveitamos para homenagear, a comitiva, daqueles arrojados condutores de boiadas, que com sol e chuva, enfrentavam valente e destemidamente, as intempéries do clima e as dificuldades devido à rusticidade das estradas.

Hoje na grande maioria, o transporte de gado, é feito por caminhões.

Falando em boiadas, vale relembrar uma “historieta”, que Seu Athanásio Mello, fazendeiro, de tradicional família bela-vistense, contava, para gurizada, que em sua volta, tomando tereré ouvia com atenção. Dizia; que um amigo seu, quando no seu veículo, que podia ser: Uma Chevrolet C-10 ou 14, um Jeep, uma Rural ou Picape Willes, passava por uma boiada, acenava e gritava, para os condutores: “O João”! Os peões da comitiva, ao ouvirem, pensavam: “Esse motorista me conhece! Quem será?” ou então; “esse motorista, confundiu, eu não me chamo João”. Era uma forma de distrair, passar o tempo, desses condutores de boiada, que conversando sobre esse caso “fortuito” e interessante, aliviava, as longas e muitas vezes, penosa jornada!

Concluído o “causo”, Seu Tupi, irmão, do seu Athanásio, perguntava: “E, foi assim mesmo, Tanásio”? Seu Athanásio, respondia: “Foi”. Seu Athanásio tinha uma memória espetacular, e sabia contar uma história…

O jantar de antes…

Essa viagem, que poderia ser considerada curta, mas que, devido à precariedade das estradas tornava-se longa.

De ônibus na época, chegávamos ao destino final, varado de fome. E o costume daqueles anos, antes do prato principal; era servida, Sopa, e logo após o prato básico: comida mesmo. Na arrumação da mesa já se via, dois pratos um raso e um fundo. Fundo para sopa, e o raso para comida. Talheres e mais a colher.

Lembro-me, numa das primeiras viagens que fiz, aliás, a primeira, acompanhado do meu pai. Devia ter uns 10 anos. No retorno, de Campo Grande para Bela Vista, depois de muitas horas de viagem, e de ter vomitado, até a última gota líquida, após um rápido banho, foi servido o jantar.

Minha mãe serviu-me, um prato de sopa. Eu não gostava de sopa, mas, naquela noite fria, tomei todas as sopas, e mais… E logo, uns prataços de comida. Saciei. Que fome hein!

Nos dias atuais, no máximo um lanchinho, uma fruta, e nada massss.

E a viagem que segue… Ouvindo músicas, através do Pen-Drive, que naqueles anos, era só no Rádio AM, que, um ou outro, carro possuía. Gira músicas: MPB, Sertaneja (raiz), Polcas, Guarânias, Boleros, Tangos, que faz recordar daqueles anos que já se foram…

Emoção do retorno…

Para quem viveu seus primeiros 18 anos, numa pequena cidade interiorana, onde tudo nos anos de 1960 era muito diferente, desse começo de século XXI, e a distância nessa viagem, encurtando, a expectativa, a emoção vai tomando conta por inteiro, deste fronteiriço, que ora escreve.

Começo a imaginar, de como encontraria, a poeirenta Bela Vista, com Bella Vista Norte Paraguai, daqueles “anos 60”. A minha velha, e gostosa cidade, hoje Centenária. Onde vivi infância, e adolescência.

Já passei: Sidrolândia, Nioaque, Guia Lopes, Jardim e Boquerón.

Estou atravessando a ponte, do córrego Machorra, umas duas léguas (12 km cada légua), para se chegar a Bela Vista.

Seguindo, passo, pela vistosa Chácara, na época do Seu Walter Nunes, pelo Posto Militar do Exército, e vou adentrando na cidade, pelo bairro Agua Doce, passando pelo Asilo, Cemitério…

Naqueles anos, a entrada principal da cidade, era pela Rua Barão do Ladário, do antigo Ginásio Estadual Cor Amarela. Hoje, nova entrada foi criada, pela Rua Teodoro Sativa, mais ou menos, pelo meio da cidade.

Visualiza-se, uma grande placa, com o nome da cidade, e de boas vindas.

Já vejo, muitas casas, passo pelo local, onde na época, acampavam as Carretas Campesinas, que ficava, mais ou menos na frente, da casa do Seu Nonô Carneiro, pela Usina, pelo Ramão Alves, pela Vó Sinhá, pelo Bar Sapolândia do Sebastião Preto, Casa/Farmácia, do Alberto Costa (Matajá).

Chego ao Hotel Pousada da Fronteira, construído no antigo terreno do Karaí João Villalba, comprado pelo Ricardo Souza Rosa (Gão). Filho do Inesquecível dentista, Geraldo Souza Rosa, cuja esposa era Dona Jorgelina (Chini). Que por fatalidade, no nascimento de seu último filho, o 9º, veio a falecer. E o Dr. Geraldo, “solito”, criou esses nove filhos, e todos bem criados, e formados. Um homem desses tem muito valor!

Filmes da memória…

Estaciono no hotel. Já não conheço os atendentes, nem eles me conhecem. Acomodo-me num apartamento. De imediato desço, e vou, para uma primeira volta na cidade.

Circulo pelas ruas principais a; Conde de Porto Alegre, Duque de Caxias e Sebastião Crispim do Rêgo e algumas outras transversais… Vou observando, e percebendo, tudo diferente e mudado.

Quede, as Casas: Buri, Pernambucanas, Riachuelo, o Hotel dos Viajantes, do Seu Abdalla, Hotel Vitória do Seu Passarinho, Hotel Panorama do Hélio Battilani, As Padarias do Mário Battilani e Bogarin, as Lojas: A Preferida, do Tito Ocariz, Casa Nova, do Bochita, Alfaiataria Guarany, do Silvestre Martins (Karaí Chivé), Sapataria Sol Nascente, do Baltazar Sanábria, Casa Moreira, do Seu Adão Moreira, Casa Gaúcha, do Seu Adão Soler, Casa Estrela, do Seu Santana, A Petisqueira, da Dona Bernarda do Seu Ticu, Casa Progresso, do Seu Deocleciano Vasconcelos (Deco), a Imperial, do Nestor Almada, a Triunfal, Do seu Hermes Lino, A Casa do Arroz, do seu Ulisses Almeida, a Casa Sol, do Seu Geraldo e Suleiman Tebicherane, a Primavera, do Tomacito Vieira, o Bar do Bigode, a Internacional, do Seu José Palmieri, o Bar Twist, do Mauro Lugo, depois do seu Esteferson Carneiro (Filhinho), e tantas outras, casas e lojas comerciais, que já não vejo mais.

E quede, aqueles inesquecíveis personagens bela-vistenses, como: Bochita, Atanasio Melo, Atanasio Loureiro, Zoé e João Pinheiro, Mário Battilani, Geraldo Rosa, Ulmerindo Xavier, Vivaldino, Urbieta, Atanasio Gomes de Mello, Eder Silva, Sinibaldo, Hélvio Pissurno, Suíte, Henrique Gomes, Sebastião Zacarias, Laranjeira (Baiano), Dax Silva (cartorário), Adolfo, Ariosto, Antonino Villalba, Orcírio dos Santos, Nano Ossuna, Rufino Villordo (pai do Augusto, famoso Pelé), Severino e Chico Gomes, Marião, Sargento Juvenal, Filhote Rondon, Reginaldo Gonzalez, Digno Aristides (Tuto), João Villalba, Olavo (Pai do Negão, do Laika), Castro Mendonça, Marcondes, Nenê Cunha, Pixaim, Americano, Miguel Fleitas, Maneco Miranda, Tupi Mello, Otávio Rodrigues e Loureiro, Elias Barbosa, Guilherme (O Bárbaro Cigano), Eli Barbosa (Dr. Eli), Walter Nunes, Chiru Brum, Papito, Bariri, Clovis Oliveira, Pery Mello e tantos outros… E os Bancos do Brasil (este está lá), Banagro, da Lavoura de Minas Gerais. E as Farmácias do Seu Virgílio, do seu Arnaldo, do Matajá e a do Quartel. E quede as rodas, de tereré, e os guris, circulando com as cestas, vendendo pastel?

Dos guris (los mitã’is em guarani), da época, não vou citar nenhum, por que com certeza, nos conhecíamos todos, e éramos muitos, se citar, vai faltar, a grande maioria… deixa como está.

E assim, tudo muito mudado e diferente. Desde as minhas lojas preferidas, e das pessoas que citei, que sempre, estavam conversando, passando o tempo, atendendo seus negócios… Podia mencionar, muito mais, empreendimentos comerciais e pessoas, mas ai, esses escritos, não findaria nunca… É, pelo jeito, tudo isso, ficou, nos filmes da história, ou da memória…! “Passagens, que não se apagam…!”

Estaciono o carro, observo o movimento de gente passando, as vitrines das lojas, reflito, “filosofo”! Momentos de arrepiar!

Observando e recordando. Depois de uma manhã, volto ao hotel.

Penso! Essa cidade, não é a Bela Vista que morei. Preparo-me para voltar. E imediatamente vou me arrumando.

Por um acaso, resolvo dar mais umas voltas.

Bella Vista Norte…

Saio da parte central da cidade. Chego até ao Japonês verdureiro (João), casa do Sargento Ajala, do Antinoo, do Delfino do Lica, já indo pelos lados do Bairro Cancha, aí começo a ver a Bela Vista, de meus tempos de criança/adolescente. Em determinados locais, um pouco retirado, da área central, mudou pouca coisa. Sinto-me aliviado.

Aproveito e vou até Bella Vista Norte, Paraguai. Atravesso a Ponte, que na época era Balsa, ou então os carros, atravessavam o rio Apa, abaixo do Passo da Canoa, ou então pelo Passo Macado.

Bella Vista Norte, também nas suas ruas principais está mudada: Quede, as lojas: La Guaireña, Ires, Perpétuo Socorro, Asuncena, Nova, a sede do Partido Colorado, em frente à praça, e os comerciantes e moradores próximo, que sempre estavam por ali conversando: Benites Real, Américo Filiú, Braza, Bazzano, Ismael Ramirez, Seu Garcete, Cândia, Gaspar e tantos outros…

Vou penetrando, até aquele fundão do Paraguai, noto, o Campo do Obrero, o Campo do Cerro, a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora, as casas simples, ruas sem asfalto, penso novamente: Assim era, minha querida Bella Vista Norte dos tempos de guri!…”Passou…”

Rio Apa e tereré…

Retornando do Paraguai, atravesso a ponte, vou costeando o Rio Apa, e chego até o Passo Pompilio, onde nadávamos naquela bela praia, que sempre estava lotada de gente, e muitas mulheres bonitas…

O Apa estreitou, devido assoreamento, e suas águas estão mais escuras. E um pouco da mata nativa, que existia, não tem mais! Nova urbanização foi feita.

Sento-me num banco, já dessa nova urbanização, e começo observar a paisagem, preparo um Tereré. Tá um dia bonito de Céu Azul. No livro, de minha autoria, Crônicas de Um Tempo – Década de 1960, por onde andava você? E mais… (Edição Esgotada). Consta uma crônica, onde converso, com o Rio Apa. Mas hoje nesse tereré, não conversamos, só nos cumprimentamos. Outro arrepio!

O Rio Apa, de meus sonhos, está ao meu lado, como sempre! Ele, também, está pensativo! Tomamos tereré, juntos, sem falar uma palavra.

Ameaçamos conversar, mas as palavras não saem! O tempo passando e eu pensando! O Apa tá com olhar distante! Eu também! Na única frase trocada, falamos ao mesmo tempo, e a mesma coisa: “Que beleza foi nossos anos, naqueles anos 60”…

Fiquei obsevando, pensando, ao tempo que sorvia o tereré, lembrei-me de muitas coisas e gente. “Fiquei guri novamente”! Senti o Rio Apa, emocionado, mas nada falei, nem ele falou…

Volto novamente ao hotel, dou uma olhada, acerto as contas. Agradeço.

Sem poeira, sem boiada e nem atoleiro…

Funciono o carro, e vou saindo devagar, olho no retrovisor, já não vejo aquele poeirão todo, dos anos 60, e nem o barulho do motor da Usina…

Acelero, aciono o Pen Drive, que roda a música, do Armando Perrupato e José Rico:

“Sou Belavistense/ Nasci na fronteira/ Não nego meu natural/Sou belavistense/Por isso eu me orgulho/ Vejo em Bela Vista/Meu berço natal…

Segue com a música:

Bela Vista (Delo da Delinha, onde no inicio ele declama!): O Bela Vista querida terra, que minha alma encerra tanta vaidade, te ofereço esses versos, pois tu me pertences, e aos belavistenses, a palavra saudade! Agora cantando: Eu sou um belavistense/Me orgulho em dizer assim/Bela Vista Bonita e Singela/É a mais bela, que existe pra mim/Toda curva que tem o Rio Apa/Representa uma Estrada sem fim…/E na vida desse seu artista/Você Bela Vista é tudo pra mim!…Me recordo, os momentos felizes/Que em ti Bela Vista passei…

Olho, novamente no retrovisor… E sigo meu caminho… hoje sem poeira, sem boiada e nem atoleiro!

Un abrazo, a los viejos, belavistenhos!

J. Paulo Villalba
Email: jpaulovillalba@yahoo.com.br
Campo Grande – MS

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