23 de outubro de 2020

Bela Vista está “carregada”

Num dia desses, sem nada o que fazer, fiquei sentado em um banco ali na Praça Álvaro Mascarenhas, por mais de duas horas, observando o movimento, confirmando o que todos falam, ou quase todos, com quem converso, moradores e ex-moradores (que foram embora em busca de melhores dias) o centro velho já era. Nem mesmo a agência do BB atrai clientes como antigamente, poucos, como são poucos os funcionários, sinais dos tempos, Um belo prédio, o do BB, hoje entregue às lembranças, não sei não, acho que no futuro não haverá mais agências bancárias, o banco será um imenso e potente computador. Não haverá mais bancários, mas estranhos engenheiros cibernéticos. Do outro lado, a Rádio Bela Vista, proprietário do Betão Escobar (ainda é?), o antigo Cine São José, reformado pelo Governo do Zeca do PT, de vez em quando abre suas portas para um evento, raras vezes, movimento mesmo é na Igreja do Espírito Santo, católica, compadre Jeremias diz que a Igreja “das elites”, mas cá entre nós, as elites são um punhado de banqueiros particulares e negociantes de vícios, se bem que um dos vícios virou remédio, vai aumentar a procura. Esses são como sombras, não aparecem, mas existem. Na Praça, também, o prédio da Câmara Municipal, muito movimentado às segundas feiras, quando se realizam as sessões com os vereadores defendendo os interesses do povo. Pois é.
Eu e minhas lembranças. A Praça está limpa, bem cuidada, comentam que é trabalho do Moneiro, secretário de Obras do município. Foi batizada com o nome de um ex-prefeito municipal Álvaro Mascarenhas, no tempo que não havia eese dilúvio de dinheiro (verbas) para as prefeituras, os prefeitos trabalhavam com pouco recursos, mas com talento e honestidade, Mascarenhas foi um deles, pai do meu amigo e Procurador do Ministério Público Estadual, Dr. Olavo Mascarenhas, protótipo de correção, deve ser orgulho do pai.
Pois bem, estava ali, a recordar, quando ele chegou, nem pediu licença, sentou-se ao meu lado, não entendi, haviam vários bancos vazios, talvez quisesse conversar, eu não estava muito afim de conversa. E grunhiu. Isso mesmo, não falou, grunhiu.
– Bela Vista está “carregada”!
– Como? Perguntei.
– Isso mesmo, carregada, fechada, falou em voz rouca. Completando – uma nuvem negra cobre a cidade, os caminhos estão bloqueados, forças negativas operam há muitos anos, não há avanços, apenas retrocesso. Até espiritual. Hoje…
Não deixei falar. Interrompi, refutando suas palavras.
– Não o conheço, nem sei por que estou lhe dando atenção, mas o amigo está errado, a cidade progrediu…
– Faça uma comparação com as cidades vizinhas, falou prosseguindo, o que era Bela Vista no passado e o que é hoje? Antes um polo regional, hoje fim de linha, terra do “já teve”. O problema, antes do mais nada, é espiritual.
– Mas… espiritual, comentei rindo.
_ Ontem, mesmo, conversando com um pastor, ele falou que nunca viu uma cidade como esta, passa semanas e semanas, com a igreja aberta, é frequentada por meia dúzia de crentes, e a congregação dele é tradicional, respeitada. E mais padre aqui não esquenta banco…
– O senhor é… – não me deixou falar.
– Deixa eu terminar. Sou (falou o nome) e não sou senhor, sou neto de Mãe Carina, afilhada de Ogun, caboclo do terreiro “Guerreiros do Apa”, conheço o doutor, respeitador das religiões, de todos os caminhos. Nosso encontro estava marcado.
A conversa estava interessante, tudo aquilo era estranho, nunca havia visto, não conhecia nenhum terreiro na cidade, o sujeito até que era simpático, uns 30 anos, saudável, riso grande, moreno, quase mulato, vestia calça jeans e camisa branca, de tênis. Mas, talvez, fosse deficiente mental, normal, não era… Perguntei.
– Por que diz que Bela Vista está carregada, o que é preciso para mudar isso? Dei um tom irônico a pergunta, dando a entender que estava gostando da conversa. Pior que estava. Conheço alguma coisa de Umbanda. E respeito.
– A cidade se fechou, responde, desde os tempos da guerra, quando o Exército do Brasil se utilizou de negros, ex escravos, para enfrentar os paraguaios, muito sofrimento, mortes, doenças, depois os tempos dos coronéis, com mais mortes, vinganças, pobre não tinha vez, pensamentos ruins, a porteira se abriu e os obsessores entraram na cidade… E…
Não deixei terminar.
_ Tudo isso é fantasia, o problema de Bela Vista foi e é econômico, de modelo, sempre vivemos em função da pecuária, não abrimos outras alternativas, estamos pagando por nossos erros, de gestão, da escolha de prefeitos despreparados, nada a ver com espiritualidade. Entendeu?
– Não precisa ficar brabo, doutor, falou mansamente, deixando-me ainda mais irritado, com o comentário, – veja, repito, as outras cidades da região, que recebem migrantes de mais diversos estados, novos espíritos, gente diferentes, com iniciativa, os mais diversos karmas, me dê relação dos que vieram para Bela Vista nos últimos 20 anos, então vai entender minhas palavras, os meus questionamentos, fique com Deus.
Sem mais nem menos, levantou-se e se foi. Assim, de repente, sumiu. Fiquei ali, embasbacado. O sujeito não tinha nada de deficiente, eu sim, me sentia o deficiente.
Até concordo. Hoje. Bela Vista precisa mudar, muito, mas muito vai depender de cada cidadão, do eleitor que elege o prefeito, o vice e os vereadores, não para arrumar um emprego na prefeitura, ou vários, mas escolha pela vida do candidato na comunidade. Também de orações, de limpeza espiritual. Falando em limpeza espiritual, fui pesquisar, descobri aonde era o tal terreiro “Guerreiros do Apa” e quem foi a Mãe Caria. Ou quem é?
Foi um dos Leite Lino, prá mais de 84 anos, quem informou, um tanto quanto surpreso com a pergunta e eu mais ainda com a resposta.
– Faz muito tempo, poucos, alguns, ainda se lembram, havia um pessoal que mexia com esse negócio de terreiro, vieram do sertão da Bahia, fugindo da seca, até descendentes dos egos escravos, os que não morreram voltaram para a terra deles, pelo que sei não sobrou ninguém. Mas porquê pergunta?
– Por nada não, apenas curiosidade.

IVALDO PEREIRA

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