24 de outubro de 2020

Jogadores da Mega sonham com casa, mas ‘gastam carro’ em apostas

Aposentado teria hoje R$ 78,4 mil se tivesse investido dinheiro de apostas.
Outro apostador já gastou R$ 19,2 mil, equivalente a 24 salários mínimos.

Do G1 DF

Apostadores “contumazes” da Mega-Sena no Distrito Federal sonham em acertar uma bolada para comprar uma casa, mas muitos já gastaram o valor de um carro popular em apostas ao longo dos anos. Esse é o caso do aposentado Marcos José, que estima ter gasto quase R$ 21,6 mil em jogos de loteria nos últimos 15 anos. Nesta quarta, ele tenta acertar o prêmio de R$ 105 milhões que será sorteado pela Caixa.

De acordo com a tabela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), com mais R$ 2,2 mil ele poderia comprar um carro popular à vista. Segundo o consultor financeiro Álvaro Modernell, se ele tivesse aplicado na poupança o dinheiro gasto com apostas teria R$ 78,4 mil, considerando uma correção mensal de 0,61%, abaixo da inflação.

Semanalmente, José gasta R$ 15 na Lotérica QI 25, de onde saiu o bilhete ganhador dos R$ 205 milhões da Mega Sena, na semana passada. O jogador diz que não tem planos, caso algum dia leve o prêmio. Atualmente, ele  joga apenas no bolão da casa de jogos porque “bilhete individual é mais difícil sair”.

Ele conta que já ganhou uma quadra e uma quina, mas que não estressa por nunca ter levado o grande prêmio. “Sou espírita, isso não me chateia. Espero que tenha ido para uma boa pessoa o prêmio”, afirmou.

O nefrologista Luis Torreão começou a jogar quando nem existia ainda a Mega-Sena, que foi criada há 29 anos. Aos 80 anos, ele gasta atualmente R$ 20 na lotérica semana sim, semana não. Ele diz apostar há 40 anos. Segundo seus cálculos, o médico estima ter gasto ao longo desse tempo R$ 19,2 mil. O valor é equivalente a 24,3 salários mínimos.

O médico lembra de um caso de 1966, quando fez um bolão na Esportiva com os amigos. Naquela época, morava em Campina Grande, na Paraíba, e as lotéricas estavam todas em João Pessoa. Um colega do grupo era dono de uma casa lotérica na capital e fazia as apostas pelos rapazes. No dia que o dono esqueceu de jogar por eles, o jogo que saiu foi o dos amigos de Torreão. “Eu não lembro quanto era o prêmio, mas um dia a gente ainda vai ganhar”, declara.

Torreão hoje participa de um grupo de mais 12 amigos, de 60 a 80 anos, que se reúnem diariamente em um café no shopping do Lago Sul. Eles jogam por volta de R$ 20 cada um, sempre que acumula a Mega-Sena, além de jogos individuais.

O engenheiro aposentado Ricardo Motta, que participa do grupo de amigos e de bolão de Torreão, estima que joga na loteria “desde que ela começou, há uns 30 anos”. Aos 71 anos, ele recorda do único prêmio que ganhou: R$ 15 mil, há 15 anos.

Motta calcula que tenha gasto em 30 anos o equivalente a R$ 14,4 mil – ele aposta R$ 10 por semana. “Se a minha mulher vir isso vai brigar comigo”, brinca. Os senhores do grupo, segundo ele, sempre ficam divagando depois do bolão sobre o que fariam com o dinheiro, caso ganhassem.

“Uns dizem que iriam sumir, outros comprariam casa para todos os filhos. Eu, sinceramente, não sei o que faria com o dinheiro. Se acontecer mesmo, aí veremos. Me preocupo principalmente com questões de segurança”, afirma o morador do Lago Sul.

Catorze anos mais jovem que Motta, Irismar Rocha Lima estima que já gastou o mesmo que o engenheiro. Lima aposta há 30 anos, R$ 10 toda semana, com apenas uma diferença: ele costuma jogar apenas na Lotofácil e na Quina. Na sexta (27), ele abriu uma exceção e jogou na Mega pelos R$ 100 milhões.

“Eu acho sim que estou jogando dinheiro fora, porque acho que nunca vou recuperar. Mas não sei o critério que se usa para chamar de vício. Eu jogo todo fim de semana, é vício?”, questiona Lima. Mas ele afirma que, se um dia ganhasse, compraria uma casa para todo mundo da família.

Com 65 anos, Paulo Marcos joga na loteria há 25. Semanalmente, são R$ 7 ou um jogo da Mega, um da Lotofácil e um da Quina. “Jogar muito é besteira, só precisa de uma cartela para ganhar”, defende Marcos.

“De vez em quando eles [a família] reclamam, mas eu não bebo, não fumo. Pelo menos isso [apostas] posso ter, não é?”, brinca o aposentado. Ele afirma que não se considera viciado: “Sempre fico no meu limite de uma aposta por jogo.”

 

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